4. BRASIL 18.7.12

1. OS ALCKMISTAS ESTO CHIANDO
2. A VOZ DE ROMA CONTRA A DITADURA
3. SUBORNO MILIONRIO
4. NO PODE PARAR POR A
5. SENADOTUR: O ESQUEMA DAS PASSAGENS MAIS CARAS DO MUNDO

1. OS ALCKMISTAS ESTO CHIANDO

O governador Geraldo Alckmin reclama dos rumos tomados pela campanha de Jos Serra, quer mais espao poltico e pode reabrir a fissura que divide os tucanos desde 2008
Pedro Marcondes de Moura

 INSATISFAO - Governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, quer ter voz ativa na campanha de Serra
 
Diz o dito popular que dois bicudos no se beijam. A expresso  absolutamente verdadeira se os bicudos em questo forem os tucanos Jos Serra e o governador de So Paulo, Geraldo Alckmin.  verdade que, nos ltimos meses, ambos tm feito indisfarvel esforo para sorrir lado a lado. Sabem que precisam estar unidos para colocar Serra de volta na prefeitura paulistana e tm como certo que uma derrota na capital paulista pode colocar em risco a reeleio do governador Alckmin em 2014. Porm, so bicudos que no se beijam. Nas ltimas semanas, o governador Alckmin liberou seus auxiliares a manifestarem publicamente a insatisfao pelas posturas tomadas pelo candidato na campanha. 

O motivo para a chiadeira de Alckmin est no espao que Serra destina ao grupo do prefeito Gilberto Kassab, desafeto do governador. O principal movimento para evidenciar a chiadeira dos alckmistas veio com a notcia do pedido de demisso de Edson Aparecido, ex-secretrio estadual de Desenvolvimento e homem de total confiana do governador, da coordenao da campanha de Serra. No QG serrista, Aparecido tem se comparado a uma pea de decorao. Um tucano que no bica. Segundo interlocutores, ele afirma que as decises do candidato atendem muito mais a interesses do marqueteiro Luiz Gonzalez e ao PSD  partido criado, em 2011, pelo prefeito Gilberto Kassab que arrastou para suas fileiras diversos quadros do PSDB e do DEM  do que a tucanos. Ao saber da notcia, Serra atuou como bombeiro nos bastidores. 

Em reunio com o secretrio-chefe da Casa Civil, Sidney Beraldo, na quinta-feira 5, Serra disse que uma eventual sada de Aparecido traria de volta rixas antigas. No sbado 7 e na tera-feira 10, ele telefonou para Alckmin com a promessa de abrir espao na coordenao da campanha para aliados do Palcio dos Bandeirantes. Procurado por ISTO, Aparecido diz que continua na campanha. Estamos todos juntos.  hora de ir para a rua, declarou, evitando comentar as especulaes. A permanncia dele, no entanto, no aliviou o desconforto dos aliados do governador. Os alckmistas querem ser ouvidos e influir, comenta um parlamentar do partido em Braslia. Ao contrrio de 2008, este ano quem tem a caneta  ele e no o Serra, resume.

POR POUCO - Ligado a Alckmin, Aparecido ameaou abandonar a campanha de Serra
 
Na ltima eleio municipal, Serra, ento governador, apoiou muito mais a candidatura de Kassab do que a de Alckmin na disputa pela capital, movimento que rachou os diretrios municipal e estadual da sigla. No ano passado, com Alckmin administrando o Estado e Serra derrotado  Presidncia, os dois lderes trocaram bicadas. Alckmistas no relevam o pouco empenho de Serra em evitar a debandada de vereadores tucanos ao recm-criado PSD. Agora, avaliam que ele vem centralizando decises e tratorando os interesses do PSDB. A gota dgua foi a conduo poltica da estratgia eleitoral. Alckmistas reclamam de favorecimento ao PSD nas decises do candidato. 

Segundo um parlamentar ligado ao governador, o PSDB cedeu demais ao PSD a pedido de Serra. Deixou de exigir o mandato dos vereadores que abandonaram a sigla e concordou com a participao da legenda do prefeito na chapa para a Cmara Municipal formada com o PR e o DEM, o que diminuir a bancada eleita pelo PSDB. Tambm aceitou o nome de Alexandre Schneider (PSD)  vaga de vice no lugar de um tucano como combinado desde a entrada de Serra nas prvias fora do prazo. Tudo tem um limite. Quando Serra precisou, Alckmin articulou no PSDB para que os pr-candidatos se retirassem da disputa e fez a composio da maior parte das alianas, lembra o deputado. No podemos ficar de fora das decises estratgicas. 

Outra reclamao  o pouco espao oferecido por Serra ao DEM, aliado de primeira hora de Geraldo Alckmin e seu grupo poltico. No se faz uma campanha isolando-se dentro e de fora do partido, diz um dirigente tucano.  suicdio poltico, vivemos isso nas trs ltimas eleies presidenciais. O Serra precisa mudar de comportamento, resume.


2. A VOZ DE ROMA CONTRA A DITADURA

Morre o cardeal alinhado ao Vaticano que defendeu as tradies da Igreja e no afrontou os militares enquanto, secretamente, protegeu presos polticos
Michel Alecrim 

SMBOLO - Uma pomba pousou sobre o caixo do cardeal: at o fim da vida ele atuou para propagar a f catlica
 
Os militares da linha dura o viam como comunista. A esquerda chegou a tach-lo de pr-ditadura. A controversa e, muitas vezes, aparentemente ambgua posio poltica do cardeal dom Eugenio de Arajo Sales tinha propsitos que incluam no s os interesses da Igreja Catlica como, tambm, a defesa de direitos polticos e humanos. A principal voz alinhada a Roma no Pas se calou na noite da segunda-feira 9, em sua casa, no Sumar, no alto da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, aos 91 anos. A morte no interrompe, entretanto, a constante reavaliao de seu papel  fundamental em momentos como a transio democrtica no Brasil e durante o regime militar (1964-1985). Ao mesmo tempo que era respeitadssimo nos altos postos das Foras Armadas, dom Eugenio protegeu milhares de perseguidos polticos brasileiros e latino-americanos. Sem enfrentamentos ruidosos, mas com determinao, o cardeal cumpriu a missionria tarefa de tentar proteger os mais fracos. Mas, como representante do Vaticano, dom Eugenio tambm ser lembrado pela mo firme contra os religiosos mais progressistas, seguidores da Teologia da Libertao, que procurava conciliar o marxismo com as ideias crists.
 
Durante dcadas ficou praticamente secreta a atuao do religioso contra a priso e a tortura de opositores do regime militar, no Brasil e na Amrica Latina, nos pesados anos 1970. Em aes silenciosas, ele deu proteo a vrios militantes, muitos deles comunistas ou ateus. Somente em 2000, falou sobre esse trabalho social em entrevista ao jornalista Fritz Utzeri, publicada no Jornal do Brasil. Foi a primeira vez que revelou ter usado at recursos da Cria para manter uma rede de abrigo aos perseguidos, muitos deles argentinos, uruguaios e chilenos. Foram alugados 80 apartamentos no Rio para escond-los e at igrejas foram utilizadas para evitar as prises. Ao todo, cinco mil pessoas teriam sido beneficiadas. Durante o movimento estudantil, eu soube de uma pessoa que foi salva por dom Eugenio. Mas ele no gostava de falar do assunto, e foi com muita insistncia que aceitou dar a entrevista, conta Utzeri.
 
No livro Dilogos na Sombra, que trata da relao entre a Igreja e os militares, o historiador americano Kenneth P. Serbin deixa claro que dom Eugenio no apoiou o golpe de 1964 e era contrrio  violncia da ditadura. No entanto, preferia atuar nos bastidores e suportava as desconfianas. Ao pesquisador, o arcebispo de So Paulo na poca, dom Paulo Evaristo Arns, que criticava a tortura publicamente, fez questo de dizer que ele e dom Eugenio tinham estilos diferentes, mas a mesma finalidade. Apesar de anticomunista, no se alinhava com o setor tradicionalista e direitista do catolicismo, que aplaudira o golpe. Ele tinha compromisso com a reforma da sociedade brasileira, concluiu Serbin.
 
O historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Fico ressalta que a preocupao de dom Eugenio em no afrontar em pblico os militares tinha como objetivo evitar conflitos entre o Vaticano e o Brasil. A viso extremamente institucional do cardeal, segundo ele, acabou colaborando com uma durao maior do perodo autoritrio. Para as pessoas que foram acolhidas por ele e que estavam sendo perseguidas fica uma imagem positiva. Mas acredito que se ele tivesse demonstrado uma resistncia forte e se equiparado a outros cardeais, teria ajudado a encurtar a ditadura, avalia o historiador. 

Assessor de dom Eugenio durante 30 anos, Adionel Carlos destaca medidas modernizantes do cardeal como a criao do Diaconato Permanente, que incluiu no clero homens casados, e a permisso para que freiras pudessem chefiar parquias, mesmo sem celebrar missas. Tudo, claro, sob os auspcios da Santa S. O que ele fez foi em nome de sua funo de pastor de um grande rebanho. Assim, protegeu ateus e descrentes, perseguidos polticos e atendeu a pobres e ricos igualmente. Ele cumpriu sua misso, resume Adionel. 

Para muitos, dom Eugenio ser sempre lembrado como o cardeal que combateu a propagao da Teologia da Libertao. Frei Betto e Leonardo Boff eram personas non gratas na Arquidiocese do Rio. Nessa tarefa foi aliado do cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregao para a Doutrina da F nos anos 1980 e 1990, e hoje papa Bento XVI. Enquanto combateu as vozes incmodas, dom Eugenio trabalhou para ampliar o nmero de seguidores  ordenou mais de 200 padres s no Rio  e at o fim da vida atuou para propagar a f catlica.


3. SUBORNO MILIONRIO

Dossi da Justia sua comprova pagamentos irregulares da ISL a Ricardo Teixeira e Joo Havelange. Propina repassada aos dois chegaria a R$ 40 milhes
Tamara Menezes 

A DUPLA LEVOU - BOLA Os valores irregulares foram pagos aos dirigentes em depsitos pessoais ou a empresas de ambos 
 
Um dossi liberado pela Justia sua na quarta-feira 11 escancara um esquema de corrupo montado h 30 anos na Fifa. Os documentos comprovam que o ex-presidente da Confederao Brasileira de Futebol (CBF) Ricardo Teixeira, e o presidente de honra da Fifa, Joo Havelange, receberam 19,25 milhes de francos suos  cerca de R$ 40 milhes  em subornos de uma empresa de marketing esportivo, a ISL. Ela foi a principal parceira comercial da Fifa na dcada de 1990. Quando faliu, em 2001, um processo judicial movido na corte da Sua revelou que os dirigentes receberam da ISL mais de 100 milhes de francos suos em troca de benefcios em negociaes comerciais envolvendo direitos de televiso e marketing.
 
O dossi no podia ser divulgado desde junho de 2010, quando o Tribunal, a Fifa e dois dos homens mais poderosos do futebol mundial chegaram a um acordo para arquivar a investigao. A papelada revela que Teixeira recebeu 12,74 milhes de francos suos (equivalente hoje a R$ 26,5 milhes) por meio da empresa Sanud, cuja ligao com o cartola j havia sido estabelecida na CPI do Futebol no Senado. Outra companhia apontada com ligaes com Havelange e Teixeira  a Renford Investments Ltd., com repasses de 5 milhes de francos suos (R$ 10 milhes). Quanto cada um dos dois cartolas recebeu dessa firma, entretanto, no foi revelado. Havelange ainda foi beneficiado com um pagamento de 1,5 milho de francos suos (R$ 3,1 milhes). O presidente da Fifa, Joseph Blatter, admitiu na quinta-feira 12 que tinha conhecimento das comisses recebidas por Joo Havelange e Ricardo Teixeira em nome da entidade. Porm, alegou que nada podia fazer por no ter como comprovar a ilegalidade do dinheiro embolsado pelos brasileiros. Blatter disse ainda que nos anos 1990 o pagamento de subornos no era um crime na lei sua e que, portanto, no tinha o que denunciar. 

Com essa declarao, o presidente da Fifa sinaliza que no pretende levar o caso adiante. Segundo ele, a comisso de tica da Fifa apenas vai garantir que os episdios no se repitam. Sobre o futuro de Havelange como presidente de honra da entidade, Blatter disse que no tem poderes para decidir o que acontecer com o brasileiro, s o Congresso da Fifa. O Congresso o nomeou como presidente honorrio. S o Congresso pode decidir o seu futuro.

ELE SABIA - O presidente da Fifa, Joseph Blatter, admitiu que tinha conhecimento das comisses 
 
Havelange, no entanto, j havia renunciado ao posto de integrante do Comit Olmpico Internacional em dezembro do ano passado, temendo ser expulso. J Teixeira deixou a presidncia da CBF e do Comit Organizador Local da Copa de 2014 (COL) em 12 de maro deste ano. Trs dias depois, tambm deixou o Comit Executivo da Fifa. Mas o estrago sobre a imagem do futebol brasileiro j estava feito. O Ricardo Teixeira poderia ser um dolo nacional por ter ajudado a trazer a Copa do Mundo para o Brasil, mas vai deixar s essa mancha, reconheceu o presidente da Federao Gacha de Futebol, Francisco Novelletto Neto. O assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, disse que a entidade no iria se pronunciar sobre o assunto porque os envolvidos no tm mais relao com a CBF. Ocorre que Teixeira ainda recebe salrio como assessor internacional da confederao. 

A ISL era encarregada de comercializar e distribuir com exclusividade os direitos de transmisso de jogos da Copa do Mundo sem passar por concorrncia. Os valores irregulares foram pagos aos dirigentes em depsitos pessoais ou destinados a empresas de ambos. A capacidade dos acusados de influenciar nas decises e contratos da Fifa foi fundamental para que fossem arrolados como agentes da conduta desleal. Eles causaram prejuzo  Fifa por seu comportamento e enriqueceram ilegalmente, diz o processo. Em consonncia com a legislao da Sua, foi oferecido um acordo de reparao aos rus. Com isso, eles pagaram para no serem julgados e ainda garantiram que a histria permanecesse envolta em sigilo at a ltima semana.


4. NO PODE PARAR POR A

Cassao do senador Demstenes Torres representou a primeira punio do caso Cachoeira. Mas as investigaes sobre os demais parlamentares envolvidos no esquema precisam continuar 
Pedro Marcondes de Moura 

FIM DE LINHA - Cassado por 56 votos a 19, Demstenes Torres fica proibido de se candidatar at 2027, quando ter 66 anos
 
Na quarta-feira 11, o painel do Senado Federal registrou pela segunda vez na histria da Casa a cassao de um de seus integrantes: o senador Demstenes Torres (sem partido-GO). Apesar da eloquncia do parlamentar em negar sua relao com o grupo criminoso, a maioria dos seus colegas preferiu dar ouvidos s interceptaes da PF de suas conversas nada republicanas com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Nem a votao secreta foi capaz de lhe salvar. Foram 56 votos pela cassao contra 19 e cinco abstenes. Sacramentada a derrota em plenrio, Demstenes perdeu seis anos de mandato. E fica proibido de se candidatar at 2027, quando ter 66 anos. s vsperas do recesso no Congresso Nacional, que est previsto para comear na quarta feira 18, espera-se que a cassao de Demstenes no signifique um ponto final nas investigaes sobre os tentculos polticos do esquema de Carlinhos Cachoeira. 

O problema  que lderes do Congresso avaliam que a CPI tende a perder fora. A no ser que surjam futuras revelaes bombsticas. A presso da opinio pblica por punio dever se reduzir, disse um senador da base aliada. Alm disso, em agosto, depois do recesso parlamentar, o Congresso volta esvaziado devido s eleies municipais. No bastassem os prognsticos nada alvissareiros para o segundo semestre, no mesmo dia em que Demstenes assistiu  sua derrocada poltica, a Corregedoria da Cmara analisou os casos de trs deputados federais do Estado de Gois supostamente vinculados ao esquema do contraventor. Os processos contra dois deles, Sandes Jnior (PP) e Rubens Otoni (PT), foram arquivados. O parlamentar do Partido Progressista teria recebido R$ 150 mil de intermedirios do grupo do contraventor, segundo acusao do PSOL. J o petista Rubens Otoni aparece em vdeo com o contraventor negociando uma doao de R$ 100 mil para sua campanha  Prefeitura de Anpolis em 2004. Otoni diz no ter recebido o valor.

ENROLADOS - O prefeito petista de Palmas, Raul Filho (abaixo), e o governador do Tocantins, o tucano Siqueira Campos (ao lado), estariam envolvidos com o esquema de Carlinhos Cachoeira
 
Outro investigado, o deputado Carlos Alberto Leria (PSDB) no teve a mesma sorte. Apontado como uma pessoa com larga relao com o contraventor, ele teve o processo por quebra de decoro parlamentar aprovado pela Corregedoria. De acordo com investigaes, ele tinha suas despesas pessoais pagas por Cachoeira e mantm sociedade com envolvidos na organizao, investigada pela CPI. A Corregedoria ainda ir analisar a situao de Stepan Nercessian (PPS-RJ). Ele assumiu ter recebido R$ 175 mil de Cachoeira, na sua verso, como um emprstimo. S se a Casa for muito corporativa, no teremos um desenlace semelhante ao do senador Demstenes para alguns parlamentares daqui, diz o deputado Ivan Valente (SP), do PSOL. Para que haja cassao, o caso ainda precisa tramitar por outras duas comisses antes de chegar ao plenrio. Em uma delas, em mais uma demonstrao da dificuldade dos parlamentares em cortar na prpria carne, o ex-delegado da PF Protgenes Queiroz (PCdoB-SP) conseguiu o arquivamento da denncia contra ele por envolvimento com um integrante do esquema.
 
S se a Casa for muito corporativa, no teremos um desenlace semelhante ao do senador Demstenes para alguns parlamentares daqui Deputado Ivan Valente, do PSOL

No Senado, a sada de Demstenes criou outro problema. Em interceptaes da Polcia Federal, Cachoeira diz ao empresrio Wilder Morais (DEM-GO), herdeiro da cadeira de Demstenes na Casa, que foi ele que o alou ao cargo de primeiro suplente na chapa do senador cassado. O relacionamento entre os dois parece bastante prximo nas conversas. Ex-marido de Andressa Mendona, a atual mulher do contraventor, Wilder tambm precisar dar explicaes sobre a omisso de boa parte de sua fortuna pessoal na declarao de bens que apresentou em 2010  Justia Eleitoral. Nada, no entanto, deve ser feito antes do recesso parlamentar, admitem os senadores integrantes da CPI. Nessa toada, Demstenes corre o risco de ser o nico a ir para o cadafalso. Enquanto deputados e senadores descansam, a situao de Demstenes se agrava em outra frente. Na quinta-feira 12 ele se apresentou na Procuradoria da Justia de Gois, para ocupar o antigo cargo. L recebeu a notcia de que ser investigado na Corregedoria e poder perder o emprego. Enquanto isso, Demstenes reivindica uma licena-prmio de trs meses, que pode lhe render cerca de R$ 240 mil.


5. SENADOTUR: O ESQUEMA DAS PASSAGENS MAIS CARAS DO MUNDO

Agncia de turismo contratada pelo Senado para fornecer bilhetes areos aos parlamentares cobra mais que o dobro do preo de mercado e vira alvo do Ministrio Pblico
Izabelle Torres

Em uma pequena sala no subsolo de um dos anexos do Senado funciona a empresa Turismo Pontocom. Criada h cerca de dois anos, com quatro scios e capital social de R$ 200 mil, a pequena e desconhecida agncia conseguiu o que tantas outras grandes do setor anseiam: fechou em agosto passado um contrato para fornecer passagens para os  senadores, num concorrido negcio de R$ 2,6 milhes, que deve chegar a R$ 6,5 milhes at 2013, aps a assinatura de dois termos aditivos. O que se descobre agora, 11 meses depois,  que a empresa s conseguiu desbancar a concorrncia graas a uma manobra. Durante o processo de licitao, a Turismo Pontocom ofereceu desconto final de 5% sobre o volume total das vendas. At a, aparentemente, nada havia de irregular. O problema  que parlamentares e rgos de fiscalizao interna fizeram as contas e constataram que, para cumprir a meta do desconto e acumular lucros, a agncia est vendendo passagens aos senadores com preos no mnimo 50% mais altos do que os de mercado. Mas h vrios casos em que seus preos mais do que dobram. A tabela da agncia que atende ao Senado parece ser uma estratgia para driblar as promessas contratuais e enriquecer  custa do errio.
 
O Ministrio Pblico do Distrito Federal est de olho na agncia prodgio. Um procurador ouvido por ISTO disse que a contratao pode esconder o crime de superfaturamento, geralmente praticado com o aval do rgo. No Senado, essa conivncia j rendeu  Turismo Pontocom mais de R$ 1,3 milho s este ano.  preciso ficar atento aos exageros cometidos por essas agncias. E os rgos precisam impor limites de gastos nos editais de contratao, disse o integrante do MP. O primeiro-secretrio da Casa, Ccero Lucena (PSDB-PB), responsvel por avalizar a contratao da agncia no ano passado, disse  ISTO que vai instalar uma comisso de sindicncia para investigar a legalidade dos preos cobrados pela novata Turismo Pontocom. Vamos apurar cada compra, disse ele. Procurados pela reportagem de ISTO, os donos da agncia de viagens que opera no Senado preferiram no se pronunciar. A reao do primeiro-secretrio do Senado foi resultado de um pedido formal de apurao encaminhado pelo senador Roberto Requio (PMDB-PR). O parlamentar ficou indignado ao constatar que o preo da passagem emitida pela agncia do Senado para o trecho Braslia-Montevidu era mais que o dobro do que a comprada por sua esposa no mesmo voo. Enquanto seu bilhete custou R$ 3.414, o dela saiu por R$ 1.654. Isso  apenas uma amostra do abuso que vem sendo praticado com o dinheiro pblico. E essa no foi a primeira vez, no  o nico caso, critica. E no  mesmo. Os pacotes de viagens fornecidos pela empresa para parlamentares que viajam frequentemente ao Uruguai para participar das reunies do Parlasul custam 25% a mais do que se a compra fosse feita no mercado por qualquer cidado comum.

"J orientei meu gabinete a emitir passagens  diretamente. Isso j resultou em economia" - Senadora Ana Amlia Lemos, do PP
 
A agncia do Senado abusa ainda mais nos preos dos voos nacionais, que deveriam ser adquiridos diretamente pelos gabinetes, como a Mesa Diretora j havia orientado em situaes anteriores. Ao emitir bilhetes para os senadores viajarem a seus Estados, os preos pagos so escandalosos. Para Macei, por exemplo, um passageiro comum encontra bilhetes no promocionais que custam em mdia R$ 350. Os polticos alagoanos, no entanto, no viajam por menos de R$ 1 mil. Para Porto Velho, os abusos no so diferentes. Enquanto empresas areas registram opes de voo a partir de R$ 600, o registro dos preos pagos pelo Senado mostra valores que passam de R$ 2.900. Alarmada com a situao, a senadora Ana Amlia Lemos (PP-RS) orientou seu gabinete a emitir suas passagens diretamente, evitando a Turismo Pontocom. Isso j resultou em economia. Dos R$ 35 mil mensais que tenho para usar em passagens, gasto cerca de 30%. D mais trabalho porque  preciso fazer pesquisas. Mas acho que essa deveria ser a regra para todos, diz a senadora. Ana Amlia  autora de um projeto que probe a cobrana de multas para remarcaes de passagens. Para ela, a mudana seria boa tambm para o Senado, j que a alegao mais usada para justificar os preos altos  a necessidade de remarcar voos. 

No Ministrio Pblico do DF tramitam 19 investigaes contra agncias de turismo que mantiveram contratos com a administrao pblica nos ltimos anos. Na maioria dos casos, as licitaes so ganhas com a promessa de preos impraticveis. O modo de operar  semelhante ao da Turismo Pontocom. H consenso entre os procuradores do MP de que alguma medida deve ser adotada para frear a gastana com viagens. Para o vice-presidente da Associao Brasileira de Agncias de Viagens, Carlos Vieira, o esquema dos descontos virtuais tem sido um grande problema enfrentado por quem opera legalmente. Casos como esse acontecem em muitos rgos. Para ganhar a licitao e pegar o contrato, agncias propem descontos no preo final que, se concretizados, fariam com que elas pagassem para funcionar. Como ningum topa trabalhar no vermelho, o jeito encontrado por elas  burlar as regras e buscar outras formas para ter lucro. Somente uma lei pode parar isso, diz Vieira. Pelo menos seis processos esto em fase final de investigao no Ministrio Pblico. Enquanto isso, algumas agncias continuam prestando servios a rgos do governo. A Distak Turismo, por exemplo, apesar de investigada, assinou contrato com o Ministrio do Trabalho no inicio deste ano. As apuraes caminham a passos lentos devido a dificuldade para provar a fico dos descontos oferecidos.

PRODGIO - Agncia contratada pelo Senado foi criada h apenas dois anos. Negcio com a casa deve chegar a R$ 6,5 milhes at 2013
 
O esquema do desconto fictcio no  novidade no Senado. Em dezembro de 2010, o ento primeiro-secretrio Herclito Fortes (DEM-PI) instaurou uma investigao para apurar o superfaturamento nos servios prestados pela Sphaera Turismo, que por seis anos atuou sozinha na emisso das passagens para senadores, graas  promessa de conceder desconto final de 17%. Os trs servidores que analisaram os gastos e os valores pagos concluram que os preos estratosfricos das passagens emitidas pela agncia eliminavam as vantagens oferecidas pela Sphaera Turismo durante o processo licitatrio. Os detalhes da auditoria foram encaminhados no ano passado ao primeiro-secretrio Ccero Lucena (PSDB-PB). Apesar de o relatrio apontar dados que mostram um prejuzo estimado em R$ 300 mil, nenhuma providncia foi tomada. A sindicncia repousa em uma gaveta sem sanes aos envolvidos. A expectativa, agora,  que a nova sindicncia aberta para investigar a legalidade dos preos cobrados pela Turismo Pontocom no tenha o mesmo destino.

